26 de janeiro de 2026

 

— Uma fábula simples e brutal

 

O AUTOR

GEORGE ORWELL é o pseudônimo de Eric Arthur Blair (1903–1950), escritor, ensaísta e jornalista britânico, reconhecido como um dos nomes mais influentes da literatura do século XX. Sua obra se destaca pela crítica política incisiva, pelo compromisso com a verdade factual e pela defesa da liberdade intelectual, frequentemente articuladas por meio de narrativas alegóricas e ensaios de forte teor ético.

Nascido na Índia britânica, foi educado na Inglaterra e, ainda jovem, ingressou na Polícia Imperial Britânica na Birmânia — experiência que despertou nele uma aversão profunda ao imperialismo e marcou decisivamente sua visão política. Após abandonar a carreira policial, passou a viver entre trabalhos modestos, experiência que deu origem a uma escrita atenta às desigualdades sociais e à condição dos marginalizados.

Ao longo da vida, Orwell atuou como jornalista e ensaísta, produzindo textos críticos sobre política, linguagem, literatura e sociedade. Sua vivência direta de conflitos ideológicos — especialmente durante a Guerra Civil Espanhola, na qual lutou ao lado das forças republicanas — contribuiu para o amadurecimento de uma postura crítica tanto ao autoritarismo de direita quanto ao de esquerda.

A Revolução dos Bichos (1945) e 1984 (1949) são suas obras mais conhecidas e formam um núcleo central de sua produção literária. Ambas abordam, por caminhos distintos, os perigos da manipulação política, do totalitarismo e da distorção da linguagem como instrumento de poder. Enquanto A Revolução dos Bichos recorre à fábula para expor a corrupção dos ideais revolucionários, 1984 apresenta uma distopia sombria marcada pela vigilância constante e pela anulação do pensamento crítico.

Além desses títulos, destacam-se: Na pior em Paris e Londres (1933), relato autobiográfico sobre pobreza e exclusão social; Dias na Birmânia (1934), romance crítico ao imperialismo britânico; Homenagem à Catalunha (1938), testemunho de sua experiência na Guerra Civil Espanhola; diversos ensaios, como A política e a língua inglesa, onde analisa a relação entre linguagem e poder.

George Orwell faleceu em 1950, vítima de tuberculose, pouco após a publicação de 1984. Sua obra permanece atual por evidenciar como regimes autoritários se sustentam não apenas pela força, mas pela manipulação do discurso, da memória e da verdade — temas que continuam a ecoar de forma inquietante no mundo contemporâneo.

 

 

A RESENHA

A Revolução dos Bichos — livro de George Orwell, publicado em 1945 — é uma fábula política. Nela, observamos a associação de três conceitos técnicos importantes, cujo significado vale a pena destacar desde o início, a fim de compreender melhor a estrutura da escrita: a alegoria, que substitui o protagonismo humano pelo animal; o antropomorfismo, que atribui características, emoções e fala humanas aos animais; e a fábula, gênero literário ao qual pertencem histórias que utilizam animais com traços humanos para transmitir uma lição moral ou uma crítica social.

A obra surpreende pelo texto simples, de leitura leve, descomplicada, rápida e, por vezes, até divertida — um tipo de narrativa que costuma despertar conforto e certa nostalgia no leitor. Essa escolha estilística deixa evidente a intenção do autor de torná-la acessível. Entretanto, pouco tempo depois do início, aquilo que poderia se tornar uma leitura de conforto começa a perturbar (como Orwell parece desejar), criando um contraponto marcante com a simplicidade da forma. Pode ser uma fábula sobre animais de fazenda, de fácil compreensão e leitura fluida, mas está longe de ser uma obra ingênua.

O enredo, convidativo e conciso, revela em poucas páginas uma profundidade inesperada. Ele evidencia — tanto durante a leitura quanto no momento posterior de reflexão — uma crítica contundente ao sistema e aos seus mecanismos de poder, à manipulação das massas (em especial) e à corrupção de ideais revolucionários, outrora bem-intencionados e voltados ao coletivo.

É compreensível interpretar A Revolução dos Bichos como um desabafo diante de injustiças observadas na realidade, como se a obra funcionasse como um espelho, filtrado pela visão sensível, singular e experiente do autor. No decorrer da leitura e, sobretudo, próximo ao fim, cresce a sensação de traição dos ideais iniciais — ao mesmo tempo em que surge a necessidade quase instintiva de pontuar cada infração ao código estabelecido no início da revolução. Orwell expõe com clareza os ciclos de dominação que se repetem ao longo da história humana.

 

 

A HISTÓRIA

Os animais — protagonistas da trama — vivem na Granja do Solar, cujo proprietário é o Sr. Jones. Cansados do trabalho exaustivo e das condições precárias de vida, eles se reúnem à noite para ouvir as palavras do porco Major: um animal idoso, vencedor de concursos e considerado líder, admirado pelos demais habitantes da granja.

Em um discurso repleto de memórias e reflexões, Major alerta os animais sobre a exploração imposta pela raça humana. Convencidos, eles passam a se organizar para pôr em prática a revolução que Major lhes ensinara. Aos poucos, os animais acreditam na possibilidade de uma sociedade igualitária, onde todos seriam livres e viveriam do fruto do próprio trabalho, partilhando ganhos e elevando a qualidade de vida. Com o sucesso da revolução, assumem o controle da granja, agora rebatizada como Granja dos Bichos.

No entanto, o ideal de igualdade rapidamente começa a se distorcer. As diferenças de capacidade entre os animais se evidenciam na divisão de tarefas, e os desentendimentos sobre justiça encontram terreno fértil para crescer. Os porcos, então considerados os mais inteligentes, assumem funções de liderança e passam a centralizar o poder. Aos poucos, princípios antes inegociáveis são reinterpretados, alterados ou simplesmente esquecidos.

Vale relembrar os mandamentos iniciais:

  • Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimiga;
  • O que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo;
  • Nenhum animal usará roupa;
  • Nenhum animal dormirá em cama;
  • Nenhum animal beberá álcool;
  • Nenhum animal matará outro animal;
  • Todos os animais são iguais.

Este último, aliás, é o grande lema da revolução — e, com o tempo, ganha um complemento silencioso e perverso: “mas alguns são mais iguais que os outros.”

A forma gradual com que o autor conduz as mudanças no sistema inicialmente acordado é justamente o que torna a narrativa ainda mais perturbadora — e o que a aproxima da realidade. Não há uma ruptura brusca, mas uma sequência de pequenas concessões, justificadas por discursos inflamados e aparentemente racionais, que ostentam o orgulho de colher os frutos do próprio trabalho e da união dos animais, antes explorados.

A manipulação da linguagem se evidencia especialmente por meio do personagem Garganta, porta-voz do líder Napoleão. Munido de retórica e persuasão, ele apaga memórias coletivas, reescreve fatos e legitima abusos de poder.

 

CRÍTICA SOCIAL E CONTEXTO HISTÓRICO

A crítica social conduzida por Orwell dialoga com acontecimentos de sua época, especialmente com o stalinismo e com a traição dos ideais originais da Revolução Russa de 1917. O autor, adepto do socialismo democrático, expõe sua desilusão diante da forma como o regime de Joseph Stalin, na União Soviética, transformou-se em uma ditadura totalitária.

Em A Revolução dos Bichos, alguns alvos principais dessa crítica são:

  • Joseph Stalin, representado pelo porco Napoleão, que acumula poder por meio de força, medo e manipulação;
  • O totalitarismo, entendido como qualquer sistema que exerce controle absoluto sobre a sociedade, suprime liberdades individuais e distorce a verdade;
  • A corrupção do poder, mostrando como ideais nobres podem ser corrompidos pela ganância e pela busca por privilégios;
  • A manipulação das massas, evidenciada pela propaganda e pela revisão histórica usadas para manter o povo submisso e desinformado;
  • A passividade e a ignorância, presentes em figuras como o cavalo Sansão e as ovelhas, que aceitam cegamente a autoridade ou se mostram incapazes de questionar injustiças.

 

 

Mesmo com o diálogo direto com eventos históricos, é importante reconhecer a universalidade da obra. Orwell não se limita a um contexto específico nem a uma única figura histórica: ele discute a fragilidade de depositar ideais coletivos e bem-intencionados nas mãos de poucos — algo que frequentemente estimula a corrupção — e alerta para o perigo da passividade diante de injustiças sucessivas e crescentes.

Outro aspecto marcante do livro é a construção dos personagens. Cada animal simboliza um papel social: os que lideram, os que obedecem, os que questionam e os que se calam. Sansão, o cavalo trabalhador, encarna a lealdade cega e a crença de que o esforço individual basta para sustentar um sistema injusto. Sua trajetória é uma das mais trágicas da obra e reforça o impacto emocional da crítica de Orwell.

Com linguagem clara, capítulos curtos e ritmo ágil, o autor demonstra que complexidade temática não depende de escrita rebuscada. Ao contrário: a simplicidade da forma torna a mensagem ainda mais eficaz, permitindo que o leitor compreenda, quase sem perceber, a engrenagem da opressão sendo montada diante de seus olhos.

A Revolução dos Bichos é, portanto, uma leitura essencial não apenas por seu valor literário, mas por sua atualidade permanente. A obra convida o leitor a refletir sobre poder, responsabilidade e vigilância, lembrando que toda revolução corre o risco de repetir aquilo que tentou destruir quando abandona seus princípios fundamentais.

Sem vigilância crítica e democracia real, revoluções feitas em nome da liberdade podem acabar apenas substituindo um tirano por outro — uma afirmação dolorosamente familiar.

Ainda assim, talvez o aspecto mais inquietante não esteja apenas na ascensão de um novo tirano, mas na forma como a injustiça se instala pouco a pouco, por cedências pequenas, discursos bem construídos e da gradual normalização do absurdo.

No fim, A Revolução dos Bichos não assusta apenas por aquilo que revela sobre líderes autoritários, mas pelo que expõe sobre a facilidade com que uma sociedade se acostuma ao inaceitável — desde que ele chegue em doses pequenas, embrulhado em palavras convincentes, bonitas e que prometem um futuro melhor. Orwell não escreve para oferecer conforto, e sim para provocar lucidez. Justamente por isso a leitura permanece tão atual, pois quando o poder começa a se justificar demais e a verdade passa a ser “ajustada” conforme a conveniência, a história deixa de ser apenas dos bichos — e volta a ser, inevitavelmente, nossa.